BRASIL REÚNE MAIS DE 930 CASOS DE OVNIS EM ARQUIVOS PÚBLICOS — UMA ABERTURA CONSTRUÍDA AO LONGO DE QUASE TRÊS DÉCADAS
Acervo do Arquivo Nacional revela décadas de registros oficiais, enquanto a história da desclassificação remonta à mobilização iniciada pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) em 1997
O Brasil possui hoje um dos mais expressivos acervos públicos de documentos oficiais relacionados a objetos voadores não identificados da América Latina. Segundo levantamento divulgado pela CNN Brasil, o Arquivo Nacional reúne 1.020 documentos referentes a 932 casos envolvendo OVNIs, grande parte deles produzida a partir de registros da Força Aérea Brasileira (FAB), incluindo comunicações de pilotos, controladores de tráfego aéreo e funcionários ligados ao setor aeronáutico.
Em agosto de 2026, o acervo recebeu uma nova atualização, desta vez com registros referentes a ocorrências de 2025. Foram acrescentados 18 relatos daquele ano, demonstrando que a documentação do fenômeno não pertence apenas ao passado: o registro de ocorrências continua sendo realizado pelas autoridades aeronáuticas brasileiras.

Os números ajudam a dimensionar um arquivo que atravessa mais de sete décadas da história brasileira. Mas existe outra história por trás desses documentos — a de como parte significativa desse material, durante décadas mantido nos arquivos militares, começou a chegar ao conhecimento público.
Esse processo não surgiu de maneira espontânea.
Muito antes de a consulta digital aos documentos sobre OVNIs se tornar possível, pesquisadores brasileiros já pressionavam o Estado pela abertura desses arquivos. Nesse movimento, a Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) teve papel particularmente importante, desenvolvendo desde 1997 uma campanha sistemática pela transparência dos registros governamentais relacionados ao fenômeno.
A mobilização que começou em Brasília
Um dos momentos fundamentais dessa trajetória ocorreu em 1997, durante o I Fórum Mundial de Ufologia, realizado em Brasília. O encontro reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros e resultou na elaboração da chamada Carta de Brasília, documento no qual os participantes reivindicavam formalmente que o governo brasileiro reconhecesse a importância do tema e permitisse o acesso público aos arquivos oficiais existentes sobre ocorrências de objetos voadores não identificados.
A Comissão Brasileira de Ufólogos havia sido constituída naquele contexto e assumiria, nos anos seguintes, papel central na interlocução entre pesquisadores civis e autoridades brasileiras.
A Carta de Brasília foi encaminhada às autoridades do país, inclusive ao governo federal e a representantes da Aeronáutica. A resposta esperada, porém, não veio.
A ausência de resultados imediatos não encerrou a mobilização. Ao contrário, estabeleceu as bases para uma campanha que ganharia força nos anos seguintes.
Em 2004, diante da falta de uma resposta efetiva às reivindicações iniciadas em 1997, a CBU intensificou a pressão pública por meio da campanha “UFOs: Liberdade de Informação Já”. O objetivo era claro: convencer as autoridades brasileiras de que documentos governamentais sobre o fenômeno deveriam ser disponibilizados à sociedade, respeitados os limites legítimos relacionados à segurança nacional.
A campanha buscava transformar uma reivindicação restrita aos pesquisadores em uma questão de interesse público: independentemente de qualquer interpretação sobre a origem dos fenômenos registrados, documentos produzidos pelo Estado e que não representassem risco à segurança nacional deveriam ser acessíveis aos cidadãos.
2005: a CBU entra nos arquivos da Aeronáutica
A mobilização produziu um episódio particularmente importante em 2005, quando integrantes da CBU foram recebidos por representantes da Aeronáutica e tiveram acesso, no Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra), a documentos oficiais relacionados a ocorrências de OVNIs.
O encontro representou uma mudança significativa. Pesquisadores civis puderam verificar diretamente a existência de registros militares que documentavam ocorrências investigadas ou acompanhadas por órgãos da Força Aérea.

O episódio seria posteriormente lembrado pelos próprios integrantes da CBU durante audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, em setembro de 2025. Na ocasião, pesquisadores relataram que tiveram contato direto com documentos oficiais existentes no Comdabra e reiteraram a longa trajetória da campanha iniciada a partir da Carta de Brasília.
A pressão pela abertura continuou. A legislação brasileira também mudou. A antiga Lei nº 11.111, utilizada naquele período nas tentativas de obtenção dos documentos, seria posteriormente substituída pela Lei nº 12.527/2011, a Lei de Acesso à Informação (LAI), que criou novos instrumentos para que cidadãos solicitassem informações mantidas pelo poder público.
A CBU passou a utilizar esses mecanismos como parte de sua estratégia de obtenção dos documentos ufológicos ainda existentes nos arquivos governamentais.
Mas o passo institucional mais significativo ainda estava por acontecer.
2013: a CBU chega ao Ministério da Defesa
Em 18 de abril de 2013, a campanha pela abertura dos arquivos alcançou um de seus momentos mais importantes. Representantes da Comissão Brasileira de Ufólogos foram oficialmente recebidos no Ministério da Defesa, em Brasília, para uma reunião com autoridades do ministério e representantes da Aeronáutica, do Exército e da Marinha.

Não se tratava mais apenas de solicitar documentos isoladamente a uma determinada Força. Pela primeira vez, a discussão chegava diretamente à estrutura responsável pela coordenação das três Forças Armadas.
O encontro foi resultado de uma sequência de iniciativas da comunidade ufológica e teve como antecedente imediato a Carta de Foz do Iguaçu, elaborada durante o IV Fórum Mundial de Ufologia, realizado em dezembro de 2012. Entre suas reivindicações estavam a abertura dos arquivos ainda mantidos pelas Forças Armadas e a possibilidade de criação de uma estrutura conjunta para estudar ocorrências ufológicas no Brasil.
Na reunião de abril de 2013, participaram pela CBU Ademar José Gevaerd, Gener Silva, Thiago Ticchetti, Marco Petit, Fernando Ramalho e Francisco Pires de Campos. Do outro lado da mesa estavam representantes do Ministério da Defesa e das três Forças Armadas.
O tema central era o acesso aos documentos militares relacionados a objetos voadores não identificados.
Durante o encontro, os pesquisadores apresentaram as dificuldades que ainda encontravam para obter determinados arquivos e defenderam a continuidade do processo de abertura. A reunião também discutiu a possibilidade de estabelecer um canal direto de comunicação entre a CBU e o Ministério da Defesa, permitindo que as solicitações relacionadas aos documentos fossem tratadas de maneira mais eficiente.
A importância daquele encontro, porém, foi além da desclassificação documental.
A CBU colocou em discussão a possibilidade da criação de um grupo de trabalho envolvendo pesquisadores civis e representantes das três Forças Armadas, destinado a analisar o fenômeno de maneira organizada e institucional. A proposta não chegou a se consolidar posteriormente como uma estrutura permanente, mas o fato de ter sido discutida dentro do Ministério da Defesa demonstrava o nível de interlocução alcançado pela campanha.
O episódio foi tão significativo que, anos depois, durante audiência pública realizada na Câmara dos Deputados em 2025, a reunião de 2013 voltou a ser citada como um dos marcos da trajetória da abertura ufológica brasileira. Na ocasião, foi lembrado que a CBU havia discutido no Ministério da Defesa justamente a possibilidade da criação desse grupo envolvendo militares das três Forças e pesquisadores civis.
A própria documentação institucional do Ministério da Defesa reconheceria posteriormente essa aproximação. Em relatório sobre a implementação da Lei de Acesso à Informação, o órgão registrou que, diante das demandas recebidas sobre o assunto, ocorreu uma aproximação institucional com o tema, incluindo audiências com representantes da Comissão Brasileira de Ufólogos e intercâmbio de expedientes relacionados à matéria.
Esse reconhecimento é importante porque demonstra que a campanha ultrapassou o universo da pesquisa ufológica e produziu interlocução formal com o Estado brasileiro.
Da pressão pela abertura à transferência para o Arquivo Nacional
A sequência formada pela Carta de Brasília de 1997, pela campanha “UFOs: Liberdade de Informação Já”, pela visita ao Comdabra em 2005, pela utilização dos mecanismos legais de acesso à informação e pela reunião no Ministério da Defesa em 2013 ajuda a compreender como ocorreu a abertura dos arquivos brasileiros.
Não houve um único ato governamental que simplesmente tornou pública toda a documentação. O processo foi gradual.
Documentos anteriormente mantidos pelas Forças Armadas começaram a ser desclassificados e transferidos ao Arquivo Nacional, onde passaram a poder ser consultados por pesquisadores, jornalistas e qualquer cidadão interessado.
O próprio Ministério da Defesa reconheceu posteriormente que, após o processamento de um elevado número de pedidos de acesso apresentados aos Serviços de Informações ao Cidadão das três Forças e da administração central, grande parte da documentação disponível sobre o assunto havia sido transferida pelos comandos militares ao Arquivo Nacional.
Nesse sentido, a história dos documentos ufológicos hoje disponíveis publicamente não pode ser compreendida apenas como um procedimento administrativo de transferência de arquivos.
Ela também é resultado de anos de mobilização da sociedade civil, na qual a Comissão Brasileira de Ufólogos desempenhou papel relevante ao manter a questão da transparência documental diante das autoridades e da opinião pública.
Um arquivo que começa em 1952
Segundo o Arquivo Nacional, o primeiro registro oficial brasileiro relacionado a um OVNI remonta a 1952.
O episódio ocorreu na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e tornou-se conhecido por uma sequência de fotografias mostrando um objeto no céu. Independentemente das controvérsias que posteriormente envolveriam o caso, sua presença nos arquivos oficiais demonstra que o interesse governamental pelo assunto acompanha praticamente toda a história moderna do fenômeno.

Nas décadas seguintes, militares brasileiros produziram relatórios, fichas, memorandos, fotografias, comunicações e outros documentos sobre ocorrências registradas em diferentes regiões do país.
Entre os episódios mais conhecidos encontra-se a Operação Prato, conduzida pela Força Aérea Brasileira no Pará durante a onda de avistamentos registrada principalmente em 1977. A missão militar produziu relatórios, fotografias, desenhos e depoimentos que, décadas depois, passariam a integrar o acervo disponibilizado ao público.
Outro episódio fundamental ocorreu em 19 de maio de 1986, durante a chamada Noite Oficial dos OVNIs. Naquela noite, objetos não identificados foram detectados visualmente e por radares em diferentes regiões do país, levando a FAB a mobilizar cinco caças para tentar interceptá-los. O então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Moreira Lima, realizou posteriormente uma entrevista coletiva sobre o episódio.
Documentos relacionados a esses e outros casos acabariam tornando-se acessíveis ao público dentro do processo de abertura dos arquivos brasileiros.
Os registros continuam
O acervo mostra também que o fenômeno não está limitado aos grandes casos históricos.
Entre os documentos mais recentes estão relatos provenientes de pilotos comerciais e profissionais ligados ao controle do espaço aéreo. Em setembro de 2025, por exemplo, um comandante da LATAM informou ter observado, durante um voo nas proximidades de Guarulhos, em São Paulo, entre duas e três luzes intensas de cores branca, vermelha e amarela realizando movimentos irregulares.
Segundo o documento, os movimentos foram descritos como semelhantes a uma “dança”.
Outro registro, ocorrido em julho de 2024 nas proximidades de Palmas, no Tocantins, descreve três objetos luminosos que aparentemente formavam um triângulo e trocavam de posição entre si. O avistamento teria durado aproximadamente uma hora.
Há ainda documentos sobre episódios potencialmente relacionados à segurança aérea. Em janeiro de 2014, por exemplo, o registro de uma ocorrência envolvendo uma aeronave da Gol descreve uma manobra evasiva realizada após a aproximação de um objeto não identificado nas proximidades de Quixadá, no Ceará.

Esses documentos não constituem, por si mesmos, evidência de origem extraterrestre. A própria natureza da expressão OVNI — objeto voador não identificado — significa apenas que determinado objeto ou fenômeno não pôde ser identificado no momento da observação. Em diferentes situações, explicações posteriores podem envolver aeronaves convencionais, satélites, balões, drones, fenômenos astronômicos ou atmosféricos.
É justamente por isso que a existência e a preservação desses registros são relevantes.
Documentação permite análise. E transparência permite que essa análise não fique restrita ao Estado.
De 1997 a 2026: quase três décadas de pressão pela transparência
Quase três décadas separam a Carta de Brasília, apresentada em 1997, do cenário encontrado em 2026.
Nesse período, a trajetória da abertura dos arquivos ufológicos brasileiros passou por diferentes etapas: a organização da Comissão Brasileira de Ufólogos; a Carta de Brasília; a campanha “UFOs: Liberdade de Informação Já”; a entrada de pesquisadores no Comdabra em 2005; os pedidos formais de acesso aos documentos; a Lei de Acesso à Informação; a Carta de Foz do Iguaçu; a histórica reunião da CBU com o Ministério da Defesa e representantes das três Forças Armadas em 2013; e, paralelamente, a transferência progressiva de documentos para o Arquivo Nacional.
Os resultados não ocorreram de uma só vez. Foram graduais, atravessaram diferentes governos, comandos militares, mudanças administrativas e transformações na legislação brasileira.
Ainda assim, a sequência histórica mostra que a pressão exercida pelos pesquisadores antecedeu em muitos anos a disponibilização sistemática desses documentos.
Hoje, quando uma busca no Arquivo Nacional permite encontrar centenas de ocorrências envolvendo objetos não identificados, é fácil observar apenas o resultado final e esquecer o processo que ajudou a torná-lo possível.
Os 932 casos e 1.020 documentos atualmente identificados representam, portanto, mais do que uma coleção de histórias incomuns ocorridas no espaço aéreo brasileiro. Eles constituem também parte da memória documental do Estado e da história da relação entre sociedade civil, Forças Armadas e direito à informação.
Para a ufologia brasileira, existe ainda um significado adicional.
Aquilo que em 1997 era uma reivindicação apresentada por pesquisadores reunidos em Brasília chegou, em 2005, ao interior do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro e, em 2013, à própria mesa do Ministério da Defesa, diante de representantes das três Forças Armadas.
A atuação da Comissão Brasileira de Ufólogos, a Carta de Brasília, a campanha “UFOs: Liberdade de Informação Já” e a reunião histórica no Ministério da Defesa ocupam, portanto, um lugar importante na trajetória da abertura dos arquivos ufológicos brasileiros.
A disponibilização desses documentos não encerrou o debate sobre os OVNIs. Na realidade, produziu algo talvez mais importante para uma investigação séria do fenômeno: tornou possível substituir parte das histórias transmitidas oralmente por documentos oficiais que podem ser consultados, confrontados e analisados publicamente.
Essa talvez seja uma das maiores conquistas do processo iniciado em Brasília há quase 30 anos.
Independentemente das respostas que os documentos possam oferecer, eles deixaram de permanecer exclusivamente dentro dos arquivos militares.

